E se eu te deixar voar passarinho?
Minha casa ficará sem a música que encanta meu dia triste.
Ficarei também sem poder te olhar, coisa que tanto gosto...
E o tempo voltará a ser seco em mim.
E se eu te deixar ir, passarinho?
Amanhã talvez não amanheça igual,
Minha lembrança será mais amarga.
Minha voz menos atrevida, pois não terei para quem me aparecer.
E se eu te forçar a ficar, passarinho?
Sentirei-me sempre o teu carrasco, algoz ou carcereiro.
Pois não nasceste aqui e a mim não pertences.
Serei grade suja, mão fechada e chave perdida.
E seu eu te deixar voar, passarinho?
Verei a porta aberta para qualquer outro não igual a ti,
Que não cantará igual, mesmo que seja igualmente belo...
Mesmo que tenha as mesmas cores ao redor.
E se eu te deixar ir, passarinho?
Sabes que levarás contigo pedaço de mim, que nunca mais darei a ninguém,
Pois não costumo tomar o que dei,
Tão pouco doar o que não é meu.
E se eu te forçar a ficar, passarinho?
Talvez eu nunca mais ouça teu canto, como antes,
Cada vez mais fraco, até emudecer.
Ou talvez tão seco, que me convencerá, mesmo sem querer, a deixar-te ir.
Pois quando estavas em minha mão, quiseste ficar,
Mas os ventos também eram outros e aquele parque não tinha paredes...
Se ir, ou se voar, ou se até mesmo eu forçar, não devia ser coisa de questionar,
Gostaria só de estar perto para poder cuidar...


