22/02/2008

COM MAIS ALHO OU MENOS

Mesmo quando sentia aquela fome, eu esperava a hora certa. Sabia que de sobre aquela máquina que expirava fogo, sairia algo de jeito. Quase todos meus sonhos eram realizados. Quase todas as receitas, que eu queria, ela fabricava amor ali, sobre aquele fogão.

Algumas vezes errava no tempero, exagerava no alho e não é por um acaso que comecei a gostar desta planta de folhas escaniformes. Ao redor do meu prato quente, suas mãos molhadas, a toalha suja de molho e alguma falta de jeito, julgo eu. Nunca tive medo de experimentar nada daquilo que ela se propunha a fazer. Sempre fez com amor, sempre trouxe para mim. Com mais jeito ou menos jeito, com mais alho ou menos.

Eu hei-de lembrar cada hora passada ao teu lado, cada conselho bem dado. Cada dia passado sobre a protecção dos teus braços, sobre a luz do teu olhar. Quando ela faltar, a festa não terá mais graça, não terá mais vida, nem sei se haverá alguma festa, presumo que não. São dias e dias até chegar o tempo certo. Quero voltar.

Quando ela fazia café, eu ficava mais tempo, mais vezes ia por lá. De quando eu era pequeno, até o dia de crescer. Me diz o que faço com tudo isso que se passa, o que faço com toda a confusão que me cerca. Aprendi a não ter medo de nada, aprendi a enfrentar de tudo.

Mas nunca consegui resolver nada sozinho.
E de tudo isso ficam o amor, o carinho, sua paciência comigo e aquele gostinho de alho.

2 comentários:

  1. Não sei quem é "Ela", mas fico muito feliz por saber que alguém, algum dia, te fez sentir em casa e te deu o carinho e conforto que mereces!


    p.s.: Só tu para meteres uma etiqueta para "alho". hahaha! ès o maior!

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  2. Olha de fato a lembrança do aconchego é em muitas vezes melhor do que estar junto. Parabéns pelo texto. Alhos e bugalhos, terezas e mesas. Um abraço

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