28/08/2009

Apenas Vontade se não Me Mexer

Era tarde de sábado, dia 23, fazia sol e tudo mais, nunca havia sentido a brisa daquela forma, talvez nunca tenha usado entorpecentes naquela esquina. O mundo é de variáveis. Qualquer coisa simples pode explicar essa euforia complexa, tão bem como tudo que vai de complexo dentro de você pode ser visto como besteira. Nos dias de sol ele andava cansado de tanto correr para o autocarro, para o trabalho ou para a escola. Tudo cansava-o ao ponto de querer liberdade à mais. Preocupante era o facto de pensar que cada liberdade abriria a porta de outra prisão. Livre das drogas, preso no mundo, seu próprio corpo por vezes era uma prisão que o impendia de voar.

Metáforas, ele nunca foi bom em metáforas. Sempre gostou de ouvir quem às sabia usar. Por isso desde de cedo frequentou a igreja, mesmo que de lá não tivesse absorvido nada, de facto. Todos os seus amigos eram um pouco mais velhos, margeava-se a hipótese de que ele seguia um lobo alfa qualquer. Não me parece. Quando a brisa se tornou forte para o continuar por aquela esquina ele sorriu e pois-se a andar, por ali ficou apenas o cheiro, da droga, do suor do trabalho, da inocência baça.

No entanto seus relacionamentos pareciam funcionar, pelo menos para ele. Ninguém com coragem perguntou qual a sua real intenção a cada investida, mais uma vez, tudo é variável. Cada um de nós mete-se em cada situação consoante uma intenção. Por esse facto não devemos generalizar coisa alguma. Todo relacionamento é bom. Aprendemos sempre qualquer coisa, nem que seja algo ruim. Coisa ruim também se aprende.

Desde a ultima vez que sentiu-se só, ele percebeu antes tarde, que existiam possibilidades nisso. Um pouco mais de tempo para si, um pouco mais de economia, menos contacto social, não ter que se apresentar, nem ir a certos lugares. Sozinho, não necessitamos nos render, esse é o facto positivo. Mas fazia falta uma boa companhia, alguém com boa conversa e um bom par de pernas. Mesmo que com o tempo elas fossem jogadas para os lados, como quando no fim da luta entre a intenção e o acto.

Por percalço ou coincidência ele a descobriu. Ela era exactamente o que ele queria, embora ele mesmo não fizesse a puta ideia do que realmente queria. Talvez eu, na posição de quem escreve, mais uma vez induzisse uma personagem a ser o que eu queria, assim como fazemos com os filhos, mas nem todos os filhos obedecem, não conseguimos pôr nossos filhos a voar, sem que seja por licenças poéticas, assim como ele num corpo não o poderia fazer, ele e ela são apenas letras. Assim como eu sou apenas vontade se não me mexer.


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