29/08/2009

Quem me dera


A vezes a cobardia me invade um tanto, que nem o que não tem importância consigo dizer. As respostas devem estar em algures da minha infância, trancadas em quartos a procura de luz. Coragem, porque se esconde? Quero saber. Não tenho tempo a perder, já não demora eu morro outra vez. A cada morte, o meu nascer é menos denso, menos coeso, mais pesaroso. Queria ter coragem para a chamar para dançar, coragem para lhe dar um beijo. Queria ter coragem para perdi um aumento, de invadir aquela sala do primeiro emprego. Queria falar do que senti a primeira vez que ela me tocou a mão, o corpo e a alma.
Sinto um puta calor, sinto olor dos teus cabelos por aqui e ali. Queria ter coragem de ter mandando p'ra o caralho minha ex-namorada. Dizer-lhe o quanto sua pessoa foi repulsiva nos últimos tempos. Dizer-lhe o que penso de verdade. Ela se foi sem ouvir. Talvez eu nunca a veja de novo. Sim, eu sou irritante... Cheio de virgulas e pontos... Chega ao pé do tempo de seguir e eu caminho com passos de quem quer voltar.
Eu tinha pouco mais de 6 anos quando sumi, só aos 11 me encontraram. Eu era mais crescido, aborrecido, e segundo quem me conhecem, mais educado. Eu aprendi a tocar, sai por aí, estive alguns países, nunca me adaptei em lado algum desse mundo. Talvez eu não pertença a isso aqui. Talvez seja facto. Queria ter coragem para ir ao mar, mas eu detesto aquele lugar, nem simpatizo com o sol. Sou pálido, de olhos castanhos escuro, meu cabelo muda de cor conforme a estação. Tenho rugas de expressão, prova de que sei me expressar. Nem que seja com a cara. Quem me dera ter mais coragem. Um pouco mais de crença em mim.
Hoje não beberei café, eu quero dormir, eu preciso dormir. Talvez não goste da minha cama, talvez seja grande demais para mim. Mas pensar em companhia quando amanhece é estranho. Quando acordamos somos diferentes, talvez por virtude da dormência o comportamento seja tão estranho. As vezes fico disperso entre o ar e o tempo, lembrando do que eu poderia ter dito na hora em que disse outra coisa, eu queria ser feliz, mas as vezes não sei se faço algo por isso. É quando me pergunto, se a felicidade existente em forma artificial e percepcionada por minha cabeça como real não é motivo suficiente para me alegrar, ou será que deveria aceitar o facto de tudo isso ser falso como o trabalho que faço?
Já tive vontade de ir longe, e fui. Quando lá cheguei, cavei fundo na minha cabeça, e mesmo sabendo que o talvez fosse encontrar, não me trouxesse nada de novo ou surpreendente, eu o fiz. Verdade seja dita, falhei. Ao meio do buraco cansei, paguei ao psicólogo e fui-me embora, José nunca mais soube de mim. Ainda hoje liga. Era estranho facto de não ter imagens da minha infância. Não que sua falta me faça sentir diferente, mas a causa disso, ainda me causa confusão. Já fui mais sedentário de à busca do meu passado. Mas mesmo o monge do alto cansa. Mesmo que a seguir o cansaço o orgulho o sustente.
Mas eu não tenho orgulhos, eu não tenho muito mais que minha maneira vazia de olhar para isso tudo ao meu redor e encarar como total e plena falta de tempo. Minha mãe sempre quis muito para mim, entretanto acredito que ela se estivesse a querer mais para ela, reflectisse algum desejo em mim. Olho para as coisas de forma altruísta e ou contraditoriamente nula. Sinto o sabor da derrota mas parar de correr não é perder de facto, é desistir. Não sei ser forte, acho que preciso de um filho também, para externar meu fracasso, depositar-lhe minha frustrações e embebeda-lo com a minha fé.
Como todos o fazem.

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