16/11/2009

Por Dentro das Paredes

Já ando por ai sem ouvir a tal. Ela que sempre foi tão irritante e imperativa. Tal facto não faz-me dar muito mais risadas que antes e os meus desejos não são iguais aos que tinha à algum tempo, ainda conservo meus medos, confesso. Eu levo comigo o dono dela, o dono da voz. Aquela voz irritante e imperativa. Faça, ignore, não tolere. Sim, e não tolerava.

Aquilo que sempre me acompanhou, tem forma desconhecida para mim. Essa coisa que dantes falava dentro da minha cabeça, hoje anda por dentre as paredes de todos os lugares onde vou, pelo menos não está mais aqui em mim. Não tenho contas de quantas vezes a obedeci, de quantas vezes alinhei aos seus concelhos. Sinteticamente simpático disse alguém, eu já era assim, só não usava esta classificação. Todos dizem de mim aquilo que não sou. Todos dizem coisas boas de mim e fico feliz por saber que estou bem ou que pelo menos aprendi a mentir com convicção.

Mas somente eu e a voz sabemos quem sou. Ela não vai dizer à ninguém, pois por enquanto, só eu a consigo ouvir. Beba mais um pouco, beba. Ainda faltará muito tempo, depois dessas longas horas de espera. A passividade que eu busquei facilitou por demais o caminho. Eu me tornei pior aos olhos dela, mas estou melhor aos meus.

Mas o barulho por dentro da parede permanece, ouço algo áspero a roçar a pele por dentre os blocos. Antes eu tinha algo dentro de mim, agora só tenho coisas para contar e tudo mais que existe a minha volta. Parece infantil desejar certas coisas, mas nunca me incomodou ser assim. O passado é um lugar que deve ser visitado de qualquer maneira, para melhorar ou para piorar. O passo para traz, o impulso para frente.

São 02h59, o amor chora. Eu ainda acordado ouço seus passos no corredor. Ela pergunta como estou, a música alta ajuda a fingir que não a ouço. As vezes tenho vontade de conhecer o dono dela, as vezes acho que é imaginação, noutra, certezas vorazes. Me encontro a falar com ela, quando outros encontram-me a falar sozinho.

Vivo à espera que ela simplesmente diga, “-vá embora”. Talvez nesse dia se tiver coragem vou, nunca tive armas e nem tenho coragem de as usar. Timidamente sabe onde deve ir. E por causa da timidez as vezes não reclamamos do desagradável. Faz bem o fazer, como faz bem ouvir a voz e ficar calado.

1 comentário:

  1. é meu irmão, mesmo do outro lado do atlântico continuo te entendendo.

    e se a voz que você ouve é a mesma que eu oiço? já pensou nisso? que a voz dentro da cabeça de cada um de nós seja a mesma? uma única voz irritante?
    pense nisso e me escreva.

    com amor,
    sua mana na dor, nas insónias e na sede

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